(obs. esta história me foi soprada por um Rouxinol...
mas personagens esperam ser batizados pelo Imperador)

Conta que ela naquela época era tão bela, que fora
proibida de passar perto dos campos de treinamento guerreiro.
De fato sua pelequando tocada pelo sol da tarde poderia ofuscar de
desejo um guerreiro, que no seu ato de desatenção poderia ser facilmente
decapitado. O líder das imediações não a mandara matar porque acreditava
que tamanha beleza poderia ter uma relação com os deuses, e por isso
temia cometer um ato que poria em risco toda a sorte da comunidade
local.
Se sua pele era ofuscante à luz do sol, mortal poderia ser á luz da
lua! A jovem, já sofria muito por ter nascido assim tão bela, tinham
medo de desposá-la, era proibida de andar sem se cobrir... e seu único
passatempo era em solitude dançar o som dos ventos, das águas agitadas
pelos ventos... e dos pássaros que lhes dava as notas.
Certa vez caminhando, nas proximidades do campo de treinamento viu
ao longe um guerreiro que se destacava entre todos os outros, tamanha
era a nobreza de sua alma que de longe a jovem se apaixonou.
Passou dias rodeando o campo, só o vendo de longe. Tomada por uma
coragem repentina decidiu seduzi-lo, disposta a correr o risco de
ser decapitada, mas com a certeza de que dançando poderia convencê-lo
de que não representava perigo, e apenas precisava de um nobre guerreiro
que a pudesse amar e defender da própria beleza.
Certo dia o guerreiro fora convocado para uma prova final, cuja meta
era demonstrar habilidade, atenção e concentração para defender a
comunidade de invasores. Foi justamente este dia que a jovem escolheu
para se mostrar...
Lá estava o guerreiro em postura de vigília, e ela desce pela grama
até ele... madrugada ainda se fazendo, e a dançarina se põe a dançar
a melodia oferecida pela brisa, e apenas o fita nos olhos movimentando
suave os dedos, os punhos e os braços... O guerreiro não esboçou sequer
ter notado a dançarina.
Conforme ela era tocada pela brisa, deixava seus quadris mais soltos...
e desenhava linhas arredondadas com eles no ar. O guerreiro não esboçou
estar tocado pela cena.
Ela espantou-se de inicio por não tê-lo encantado com a dança, afinal
na maioria dos casos nem seria preciso dançar para que caíssem de
joelhos em adoração à sua beleza.
Mas estava decidida a fazer com que ele se apaixonasse por ela, e
assim a livrasse da condição triste de solidão. Então o dia começou
a clarear... e cada raio que tingia o céu era um movimento torcido
de seu tronco... uma descida ao solo... um ondular de ventre... sempre
encarando nos olhos o jovem, que não movia um músculo sequer... do
corpo, ou da face...
A dançarina começava a ficar exausta ... mas o dia raiava e ela tremia
os quadris juntos com as folhas que caiam das árvores, girava no eixo
com rápidos movimentos de braços que lembravam os pássaros em vôos
rasantes.
Era difícil dizer se ela seguia o pulsar do dia que ia nascendo ou
se o dia seguia seus comandos para nascer... Em todos seus anos de
solitude, pôde escutar cada nota produzida pelo elementos da natureza,
e ser cúmplice e íntima de cada transformação, da terra e dos dias.
O guerreiro por sua vez parecia realmente estar apto para a guerra...
sem sensibilidade para notar a dançarina, nem mesmo parecia homem
de se tocar pela beleza de uma mulher. A jovem custava a aceitar que
ele pudesse não ter alma. Não teria sido à toa que ele se destacara
no meio de outros tantos guerreiros, mas se ele possuía alma, nobreza,
porque não a desejava?
Em toda sua concentração o guerreiro não moveu um músculo sequer,
não derramou um gota de suor, não piscou os olhos mais do que o normal...
nem desviou da moça... nem a encarou com agressividade.
O dia já estava alto e ela dançava, exausta, disposta então a dançar
até que alguém a decepasse, para que viver em solidão? Sem um amor
que a pudesse desejar e proteger? Então um outro guerreiro se aproxima...
e surpreso, já se prende pela cena, confuso em julgar o guerreiro
vigilante por não tê-la matado, ou possuído, confuso em se deveria
chamar uma autoridade ou invadir a cena... e se invadisse o que fazer?
Mas o guerreiro que se aproximou, ele sim, hipnotizado pela dança,
ali parou e nada fez... Neste exato momento surge um invasor no campo...
empunhando a espada ainda distante dali, mas preparando o golpe, que
cortaria a cabeça da dançarina... e em seguida poderia ferir ou até
matar os dois guerreiros.
Num único e rápido movimento, o guerreiro por quem se encantou a dançarina,
retira o arco, prepara a flecha, e acerta a poucos centímetros dela
o invasor armado.
A moça, perplexa com o reflexo do guerreiro, interrompe assustada
sua dança, ele que não mais precisava provar sua habilidade, nem tão
pouco sua concentração, tendo protegido não apenas a comunidade do
invasor, mas a dançarina que o encantara por horas a fio, a pega nos
braços, provando a todos, que toda beleza do mundo não precisa ser
motivo de medo, nem levar a perdição, pode ser contemplada, protegida
e amada.
Ambos viveram por muitos anos... amando.