Dança do Ventre



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OS CAMINHOS POR ONDE A DANÇA DO VENTRE PODE NOS LEVAR

O trecho a seguir foi escrito por uma aluna muito querida de quem sinto muita saudade, pois com ela também aprendi muito! Seu nome é Albertina Puntoni, fez aulas comigo por quase 3 anos em Brotas e estas palavras me tocaram muito quando ela me trouxe no fim de uma aula, tenho ainda o mesmo papel escrito à mão por ela.

Ah, estas mulheres!

Ser mulher é maravilhoso, mas também uma batalha sem fim, não importando a época, o lugar e os costumes! Se é do ocidente ou do oriente... são dificieis os caminhos a percorrer!

Quantas vezes nos escandalizamos quando vemos nos jornais condenação por apedrejamento, imposição da burka ou ainda a mutilação!

Se não for boa guerreira, não importa onde, será apedrejada por uma sociedade que a julga culpada, que a impõe submissão a tudo o que já está decidido desde o seu nascimento.

Mas eu sou mulher e guerreira! Estou na luta e lutar é vencer!

Eu sou aquela que tem no coração a vibração do derbake e na alma a poesia do alaúde. Sou o deserto misterioso, escaldante durante o dia e na noite cheia de estrelas. Há em mim a calma do camelo e a sensualidade da serpente. Aqui está a preferida do sultão, mas o espelho reflete também a moça recatada da aldeia e a jovem feliz do mercado! Sou a sacerdotisa, ou melhor, sou o templo perfumado com as mais finas essências onde sempre todas estas mulheres se encontram pela magia da dança!

Albetina é um exemplo de mulher para mim... doce e delicada chegou na primeira aula querendo resgatar a mulher dentro dela, aos teus 52 anos ela iniciou seu caminho na dança e este texto é só uma mostra do que a dança trouxe para sua vida! Tina, um beijo grande, esta homenagem eu não podeia deixar de fazer! Amo voce, saudades, em cada passo meu no palco lá você estará!


Sempre que ouço as pessoas falarem da dança do ventre os primeiros comentários a respeito dela é que é uma dança feminina e sensual, depois passam a falar de origem, e aí entra no mundo das suposições.

No meu ponto de vista, depois de tantas vivências com a dança do ventre, percebo que a mesma não possui um território de origem quando se trata da sua essência. A dança do ventre é muito explorada dentro dos territórios árabes como "dança para turista ver", sim porque depois que os orientalistas expuseram na europa a dança desnuda das mulheres nos haréns, nos mercados e ruas, e em seguida os cineastas de Hollywood levarám às telas as danças de dentro dos cassinos esta passou a ser um ícone para os ocidentais quando se fala em dança árabe. É claro que muitos dos países destes territórios passaram a explorar mais a dança como um convite aos olhos do ocidente. Mas isso não quer dizer que a dança do ventre seja praticada por todas as mulheres árabes, muito menos que faça parte de seu cotidiano, esta nem de longe poderia ser eleita a dança que representaria o povo árabe.

As danças folclóricas e regionais sim seriam mais apropriadas para representa-los, porém com uma devida cautela de se manter preservada as vestimentas corretas, os ritmos corretos e acima disso os movimentos apropriados a elas. Num said com bastão, por exemplo, considero um crime dançar de barriga de fora, ou mesmo recriar um baladi usando deslocamentos espaciais como arabescos e outros que surgiram do ballet clássico.
Devemos usar bom senso principalmente no momento de divulgar o que estamos dançando, acredito que na Arte tudo é permitido, mas saibamos definir o que estamos criando e o porquê estamos criando.

De tantas vivências que passei com dança do ventre posso afirmar (embora só para mim mesma, pois cada um sente como deve sentir) que a sua "base essencial" é a manifestação do EU feminino. Portanto sem berços, a dança do ventre seria patrimônio da humanidade inteira, podendo ser vista em muitos continentes de formas diferentes, mas sempre com um ponto (ou mais) em comum, o contato pleno da mulher que dança com seu intimo, a conexão com sua natureza primária, isso sendo explorado através da sinuosidade dos movimentos, da cadência das batidas que "casam" com seu pulso interno, do mistério dentro do olhar que acontece naturalmente quando todo seu corpo já está conectado com sua essência.

Partindo desta idéia, creio que a base da dança do ventre nos dá os caminhos para nos conhecer, de forma mais profunda, dentro dos nossos instintos, dentros das nossas emoções, e isso nos proporciona poder conversar com esta essência enquanto dançamos, e este diálogo é transportado para o público que vivencia alguns intantes de conexão com seu interior também, conduzido pela música e pela boa execução da mesma no corpo da bailarina.
Hoje quando me perguntam o que eu danço me sinto perdida, porque dizer "dança do ventre" remete ao que a midia expõe, da dança árabe, da dança com roupas esvoaçantes e véus... e danço isso também, mas para além disso tem também outros conceitos, posso dançar qualquer coisa que me toque com intensidade, seja um momento, uma lembrança, um desejo, todos estilos musicais podem ser empregados dentro de um conceito.

Dizem que bailarinos são um pouco atores também, pois interpretam personagens quando dançam, mas mesmo que eu acredite que estou dançando um personagem "inventado", tanto ator quanto bailarino empresta muito (ou tudo) de si para estes personagens, então só é possivel dançar e interpretar quando conhecemos a nós mesmos. E foi isso que a dança do ventre me proporcionou, conhecer a mim mesma. Acredito que isso possa acontecer naturalmente ou com um professor que guia teu caminho, desde que ele também já tenha sido tocado por esta experiência e saiba te conduzir por este caminho.

Hoje penso que podemos TUDO com a expressão do nosso corpo em movimento... que dançar é um diálogo entre o corpo da bailarina e a sua música, um diálogo que traduz o está gravado em sua alma.